Depois de trocar todas as lâmpadas da casa, varrê-la de traz pra frente tendo o cuidado de deixar o lixo do lado de fora, não hesitou e atear fogo às vassouras. Lavou os batentes com água do mar, borrifou os cômodos com água benta, defumou tudo com água, açúcar e xerém e encheu a casa de flores amarelas em vasos virgens... Merecia um bom banho com sal grosso com arruda; começou vestindo a nova cueca vermelha, calça e camisa brancas, o lenço amarelo, a sola do sapato novo levava cuidadosamente gravada o nome da amada, calçou e pra não correr riscos sepultou cinqüenta mangos em cada pé.
Aquele ritual havia despertado uma fome africanizada, haveria de se fartar... À mesa saboreou o tanto que pode das lentilhas puxadas no alho, chafurdou na carne de porco, mas sua gula se acentuaria mesmo na hora da mordida na vermelha maçã acompanhada das romãs, das nozes, castanhas, avelãs e tâmaras e uvas... Sentia-se enfastiado!
Foi pra beira do mar levando aquele champanhe francês, esperou a contagem regressiva com a indócil rolha entre as mãos, não poderia perdê-la... Dois, Um, Zero... Numa gritaria ensurdecedora, deu três pulinhos no pé direito com a taça de cristal na mão esquerda, deu sete goles e jogou líquido com taça e tudo por sobre o ombro direito, deu mais sete pulinhos, quase tropeçou naquela gostosa ao lado... Abraçou-a e convidou-a pra acender sete velas, molhou o lenço novo, amarrou com ele um punhado de moedas, jogou palmas e rosas brancas pra Iemanjá, pulou sete ondas e guardou sete caroços de romã na carteira...
Não haveria como ser um ano de má sorte...
Colocou a carteira no bolso da frente, tinha uma boa grana nos sapatos e no lenço e o principal aceno do afortunado ano que se iniciava: deixou portas e janelas abertas, caso contrário nem teria tempo de levantar a tampa do vaso...
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário